Combater o aquecimento com pó de rocha
Ao “fertilizar” em grande escala as terras agrícolas com rocha triturada, poderíamos retirar grandes quantidades de carbono da atmosfera. Em teoria.
Para limitar o aquecimento global a dois graus Celsius, já não basta travar as emissões de gases com efeito de estufa até 2050. Também teremos de remover carbono da atmosfera. Ao espalhar pó de rocha triturada nos solos agrícolas, poderíamos retirar do ar, todos os anos, entre meio e dois mil milhões de toneladas deCO2, calculou uma equipa internacional de cientistas na Nature.
Concretamente, trata-se de rochas como o basalto, que contêm silicatos. Esses minerais reagem comCO2 do ar quando se alteram sob condições húmidas. No processo, o carbono transforma-se em iões bicarbonato (HCO3-), que acabam por chegar ao oceano através do escoamento da água da chuva. Aí, parte do carbono acaba sob a forma de carbonato de cálcio (CaCO3) em conchas, crustáceos e corais e, quando estes morrem, acaba por se depositar no fundo do mar.
“Na natureza, esse processo é muito lento”, disse o biólogo Ivan Janssens (UAntwerpen), que colaborou no estudo. “Mas podemos acelerar a alteração ao moer finamente os detritos de rocha, o que permite que mais silicatos interajam comCO2.” Os investigadores veem nessa abordagem uma forma de remover carbono da atmosfera em grande escala e, assim, abrandar o aquecimento global.
Sem concorrência
De acordo com os seus cálculos, o potencial da tecnologia é maior na China, nos Estados Unidos e na Índia, países com enormes extensões de terras agrícolas e, por coincidência, os maiores emissores de gases com efeito de estufa. Na Europa, as possibilidades são mais limitadas devido à menor área agrícola. Ainda assim, os cinco países com maior potencial — incluindo a Alemanha, a Espanha e a Polónia — poderiam retirar do ar cerca de um terço doCO2 anual da Europa.
“A grande vantagem é que não tem de escolher entre o uso do solo para alimentos, culturas energéticas ou floresta”, biólogo Ivan Janssens (UAntwerpen)
Os cientistas salientam que o potencial da alteração acelerada é semelhante ao de técnicas mais conhecidas, como a (re)florestação, a introdução de mais matéria orgânica nos solos agrícolas e o cultivo de culturas energéticas combinado com a captura e o armazenamento de carbono. “A grande vantagem aqui é que não há concorrência pelo uso do solo”, diz Janssens. “Não tem de escolher entre usar a terra para alimentos, culturas energéticas ou floresta. Porque continua a poder produzir alimentos nos solos ‘fertilizados’. Como também se adicionam outros micronutrientes, como o zinco e o selénio, e como os minerais também ajudam a combater o stress da seca e a acidificação, até esperamos um efeito positivo na produção alimentar.”
Tijolo e betão
A tecnologia não é totalmente nova. A farinha de rocha já é usada como corretivo do solo na agricultura biológica, entre outras aplicações. “A diferença está na escala”, diz Janssens. “Partimos de uma dose de aplicação anual de 40 toneladas por hectare.” De onde virá todo esse pó de rocha? “Não há intenção de extrair grandes volumes de rocha rica em silicatos especificamente para este fim”, afirmou Janssens. “Mas existem grandes quantidades de entulho disponíveis em todo o mundo como subproduto da mineração. Também alguns resíduos da indústria metalúrgica e até tijolo e betão triturados são perfeitamente utilizáveis.”
Quanto é que isso deveria custar? Os investigadores estimaram que, consoante os custos de mão de obra e de energia por país, custaria entre 75 $ e 250 $ para remover do ar uma tonelada deCO2 com alteração acelerada, e que este custo diminuiria à medida que a técnica fosse mais amplamente adotada. Segundo as projeções do Banco Mundial, o preço para emitir uma tonelada deCO2 será de 100 $ a 150 $ até 2050. Nesse caso, a tecnologia tornar-se-ia rentável em muitos locais, mais rapidamente em países emergentes como a Índia, a China, a Indonésia e o Brasil.
Grande incerteza
Os cientistas determinaram o potencial da alteração acelerada com base em ensaios laboratoriais e modelos. Os ensaios laboratoriais incluem avaliar a rapidez com que as rochas se alteram em substratos de envasamento e quanto carbono é armazenado no processo. Entre outros aspetos, os modelos têm em conta a quantidade de terras agrícolas e a proximidade de rocha adequada — faz pouco sentido transportar detritos de rocha a milhares de quilómetros. “A incerteza é enorme”, reconhece Janssens. “Precisamos urgentemente de ensaios de campo para compreender melhor a rapidez com que estes processos ocorrem na prática e como os podemos acelerar.”
“Mesmo que levemos asCO2 emissions a zero até 2050, já não conseguiremos manter o aquecimento abaixo de dois graus Celsius”, afirmou Janssens. “Para isso, teríamos de remover do ar o excesso deCO2. Segundo o IPCC, até 10 mil milhões de toneladas por ano na segunda metade deste século. Vamos precisar de todas as técnicas possíveis para isso. Quanto mais cedo começarmos a fazê-lo, menor será a probabilidade de o aquecimento ultrapassar pontos de viragem perigosos.
farelo de rocha Organifer
Temos uma variedade de diferentes tipos de rocha no nosso sortido. Assim, tanto a farinha de lava — farinha de basalto — como o pó de lava têm silicatos e contribuem para a fixação de CO2.








































